Vinhos falsos: só um foi condenado. E por que 43 mil garrafas na adega?

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A Netflix colocou em sua grade o documentário “Sour Grapes” (Uvas Azedas), com a história mirabolante do indonésio Rudy Kurniawan, que enganou muita gente nos Estados Unidos nos últimos anos vendendo vinhos caríssimos de safras antigas, sobretudo da Bourgogne, habilmente falsificados. Há quatro meses postei esse caso aqui e, vendo o documentário, fiquei impressionado com as imagens mostrando Rudy pavoneando sobre vinhos e as mentiras a respeito da origem de seu dinheiro.

Mas fiquei ainda mais intrigado com uma frase ao final dizendo que ninguém mais foi condenado – Rudy está numa prisão na Califórnia cumprindo 10 anos de cana. Claramente se mostra que ele teve cúmplices na maracutaia, sobretudo o leiloeiro que vendia os lotes de vinhos falsos. Mas também fiquei pensando nos absurdos da vida nesse mundo, que mostrou mais uma de suas faces no caso do bilionário que ficou indignado por ter sido iludido pelo indonésio e contratou detetive e ex-agente da CIA a peso de ouro para desmascará-lo. Satisfeito, passeia pela imensa adega e a pergunta fica no ar: pra que um homem de seus 80 anos tem 43 mil garrafas de vinho guardadas? É um colecionador, se justifica. Ah, bom…

Vinhos falsos. E um falsário brilhante (até escorregar ao ir a 1929)

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Um dado inquietante revelado recentemente pela União Europeia da Propriedade Intelectual: anualmente a Europa perde um bilhão e 300 milhões de euros com falsificações de vinhos e destilados.

O país onde isso mais ocorre é a Espanha, onde as empresas legalmente instaladas perdem a cada ano 263 milhões de euros com produtos adulterados, enquanto o governo deixa de arrecadar 90 milhões de euros em impostos. Depois da Espanha estão na lastimável lista: Itália, Alemanha, França e Reino Unido.

Isso é um sério problema porque nem sempre conseguimos detectar se um vinho ou destilado é ou não original. A falsificação de uisques sempre foi algo manjado, mas é mais camuflada e difícil de perceber no caso dos vinhos, embora haja uma pista: a falsificação atinge em sua maioria os vinhos caros, bem caros. Aí, quem pode comprar tem de ficar esperto e confiar no fornecedor.

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Que não poderia ser Rudy Kurniawan (foto), indonésio que durante vários anos enganou muita gente graúda e foi condenado em 2014, em Nova York, a 10 anos de prisão por falsificar “perfeitamente” grandes vinhos franceses da Bourgogne e Bordeaux, como Romanée-Conti ou Petrus. O cara chegou a ser considerado um dos cinco maiores experts de vinho do mundo e montou na sua casa, em Arcadia, Califórnia, um laboratório onde tudo era fajuto: rótulos, capsulas, rolhas e, nas garrafas, vinhos apenas bons, mas longe da categoria do original.

Ninguém notou nada nesses anos todos e Rudy Kurniawan sentiu-se seguro para ir mais longe, ao ano de 1929. Ele ofereceu para leilão em Nova York um lote de 97 garrafas de Bourgogne do Domaine Ponsot, estimado entre 440.000 e 602.000 dólares. Único probleminha: a safra era de 1929, mas os vinhos Ponsot só começaram a ser engarrafados em 1934. Foi-se a vida de muito luxo que Rudy, 37 anos à época, levava.