Viajar à origem dos vinhos ficou mais fácil

Mendoza

O enoturismo é uma atividade de viagem crescente no mundo. Mas nem sempre é simples agendar visitas a vinícolas (algumas são bem mal-humoradas para receber turistas) ou montar um roteiro de alguns dias para conhecer uma ou mais regiões. A novidade é o lançamento no Brasil de uma plataforma online, a Wine Paths, que lista excelentes estabelecimentos nas principais regiões vinícolas e também de destilados do mundo.

Os membros da Wine Paths incluem vinícolas e destilarias importantes, restaurantes de alta gastronomia, hotéis de luxo e agências de viagens locais com conhecimento especializado de cada região. A seleção contempla 13 países e mais de 90 destinos ao redor do globo e quem navega pelo site pode contatar especialistas para um itinerário feito sob medida ou reservar diretamente com os cerca de 300 membros selecionados. Eles estão na Argentina, Austrália, Chile, França, Itália, Estados Unidos (Napa Valley & Sonoma), Nova Zelândia, Portugal, África do Sul, Espanha e Uruguai.

Também fazem parte da seleção com curadoria da Wine Paths itinerários de uísque em célebres destilarias da Escócia e Irlanda, ou de Cognac, na região homônima francesa.

Os viajantes têm a liberdade de organizar o roteiro de duas maneiras: com um especialista da região ou por escolha pessoal. Nesse caso, o site (todo em inglês) oferece as ferramentas para entrar em contato com os membros participantes e reservar diretamente as visitas, degustações, estadias e mesas nos restaurantes.

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32 estrelas acompanhando a aura de Joël Robuchon, o chef.

Joel Robuchon

Quando escrevia para a revista VIP, da Editora Abril, recebi a “missão” de ir à França e Suíça comer em três restaurantes e entrevistar os seus nomeados “cozinheiros do século 20” pelo Guia GaultMillau: o suíço Freddy Girardet e os franceses Paul Bocuse e Joël Robuchon. O primeiro se aposentou em 1997, depois de uma carreira brilhante em Crissier; o célebre Bocuse morreu em janeiro deste ano e o mais novo deles, Robuchon, morreu hoje (6/8) aos 73 anos. Indiscutivelmente sua culinária foi a que mais me impressionou, não só pelo rigor técnico de seus pratos, com apresentação impecável, mas também pelo talento inacreditável ao fazer de um simples purê de batatas algo etéreo, inesquecível.

Ele me recebeu, em abril de 1994, após o almoço no seu então restaurante na Avenue Raymond Poincaré, no elegante 16º arrondissement de Paris. Conversamos por um bom tempo, respondeu minhas perguntas com ampla simpatia, me mostrou toda a cozinha e autografou o livro onde sua jovem carreira, aos 40 anos de idade, já era descrita como a de um chef fora de série reconhecido em vários países. Sua geleia de caviar com creme de couve-flor e seu ravoli de lagostins deixaram lembranças sublimes. Com uma aura que o distinguia dos outros chefs, Robuchon deixa a Terra acompanhado por nada menos de 32 estrelas conferidas a ele pelo guia Michelin em seus vários restaurantes. Adieu, monsieur Compagnon du Devoir.

Vinhos heróicos. Já ouviu falar deles?

Vinhedos na Quinta Santa Barbara, Douro

Este é um concurso de vinhos diferente: Mundial dos Vinhos Extremos 2018. A premiação será realizada no próximo dia 23 de setembro no Palazzo Madama de Turim, Itália, e o concurso se anuncia como “a única manifestação enológica mundial especificamente dedicada ao vinho produzido em zona caracterizada como viticultura heróica”. Isto é, vinhedos em lugares de difícil acesso, como montanhas, em áreas pequenas e com uvas típicas do lugar, preferivelmente com cultivo orgânico.

Foram julgados no mês de julho em Aosta, norte italiano, 722 vinhos europeus e de outros países como Armênia, Georgia, Cazaquistão, Líbano, Turquia, Cabo Verde, Eslováquia e Chile, país que ganhou uma das raras cinco medalhas Grande Ouro. Além destas, 127 vinhos foram premiados com Ouro e 92 com Prata, representando 30% das garrafas inscritas. Era necessário o mínimo de 85 pontos sobre 100 para um vinho ser premiado e havia várias categorias, mas apenas em três delas brilharam os maiores vencedores.

OS PREMIADOS COM GRANDE OURO

Vinhos brancos de 2016 ou anos precedentes:

Aigle Chablais Lettres De Noblesses Viognier Elevé En Amphores 2016, da Badoux Vins em Aigle, Cantão de Vaud, Suíça.

Vinho tinto de 2015 ou anos precedentes:

RHU de Alcohuaz 2013, da Viñedos de Alcohuaz, Paihuano, Valle de Elqui, Chile.

Goriska Brda Merlot Bagueri 2013, da Klet Brda, Dobrovo, Eslovênia.

Vinho doce com resíduo de açúcar superior a 45,1 gramas por litro:

Passito di Pantelleria DOC Shamira 2012, da Azienda Agricola Basile, ilha de Pantelleria, Sicília, Itália

Costa Toscana IGT “Nantropo” 2017, da Azienda Agricola Fontuccia em Grosseto, Toscana, Itália.

Puglia, Itália 2012

Opinião – Os concursos de vinhos realizados mundo afora são uma excelente fonte de renda para seus organizadores. Alguns cobram 500 dólares para cada garrafa inscrita e, às vezes, são milhares delas em julgamento. Os jurados passam o dia experimentando (e obviamente cuspindo) dezenas de vinhos, como aconteceu comigo em um concurso no sul da Itália há alguns anos, com baterias diárias de 84 doses de vinhos diferentes durante três dias (foto). Confesso que é muito difícil determinar objetivamente quais os melhores (ou piores) depois da 50ª dose… mas acho que esse concurso dos vinhos extremos é interessante ao revelar pequenos produtores e seus sonhos materializados em locais de cultivo improvável.

PS: no título, o corretor me revelou que a nova ortografia manda escrever heroicos sem acento, por ser uma palavra grave ou paroxítona.. Com som de heroícos? Sem heroísmo, que continua com acento, mantenho a outra.

Misturar champagnes é bom? Veja este resultado

 

Veuve Clicquot gfO mundo do champagne vive de sonhos e as maisons seculares da famosa região francesa estão o tempo todo buscando novas formas oníricas de agradar os consumidores. É o que fez a tradicionalíssima Veuve Clicquot ao lançar no mercado brasileiro o champagne Extra Brut Extra Old.

Quase todo mundo identifica o rótulo amarelo do champagne super conhecido no Brasil e a intenção da nova marca, segundo o chef de cave Dominique Demarville, que veio aqui especialmente para o lançamento, foi criar mais uma versão especial de seu produto, desta vez usando apenas um blend com vinhos de reserva premiados. Veuve Clicquot Extra Brut Extra Old é produzido com safras millesimés de 1988, 1996, 2006, 2008, 2009 e 2010.

O resultado foi sentido no Manioca, casa de eventos de Helena Rizzo, do restaurante Maní, recepcionado por Sergio Degese, diretor geral da marca no Brasil. No almoço, um menu à altura da novidade da Veuve Clicquot, com um destaque absoluto: a pescada amarela com tucupi, banana da terra e as já famosas migalhas do Maní ou: farofa crocante com vários tipos de pão. Combinou muito bem com o champagne agora lançado, que mostrou acidez gostosa e vibrante, aromas frescos para um produto “old” e fino equilíbrio de sabor. (Valor médio garrafa 750 ml: R$ 670,00)

Veuve Clicquot 1

Sergio Degese (esquerda) e Dominique Demarville

Barolo à mesa, sempre bom. Com cordeiro, melhor ainda

Paleta desossada de cordeiro, com batatas gratinadas. Terraço Itália

O Piemonte é uma das regiões vinícolas mais importantes da Itália, com muita história e alguns vinhos míticos, como o Barolo. Ele é essencialmente gastronômico, com uma acidez límpida e taninos finos, ótimo para acompanhar boas carnes. Nem sempre com preço acessível, ele passeia pelo imaginário de muita gente e, às vezes, surge uma boa oportunidade para experimentá-lo. É o caso do jantar no próximo dia 16 de maio, às 20h00, no Terraço Itália, onde dois vinhos dessa denominação de origem italiana, junto com outros da mesma região, estarão acompanhando pratos do chef toscano Pasquale Mancini.

Os vinhos são da vinícola piemontesa Gianni Gagliardo, da comuna de La Morra, em parceria com a importadora World Wine. Por R$ 220,00 por pessoa + 12% de taxa de serviço, o jantar inclui drinque de boas-vindas, seguindo com Arancini di Gorgonzola dolci e Barbera D’Alba Madama 2015; Melanzane in crema di Parmigiano com Nebbiolo D’Alba San Ponzi 2013; Risotto allo zaferano, piselli e ragù de ossobuco com Barolo Suoi 2013 e Spalla d’agnello disossata con patate gratinate (foto) com Barolo DOCG 2009, vinho com pontuações acima de 90 pontos de críticos influentes. Sobremesa: Semifreddo di zabaione con amarena. Reservas: (11) 2189-2929

Terraço Itália

Estes vinhos chilenos, admirados pela qualidade e preço justo

BIO - Emiliana - Chile - corredor biológico

Há alguns anos visitei as vinícolas Emiliana e Cono Sur, no Chile, interessado em conhecer seus métodos biodinâmico e orgânico no cultivo, sem o uso de pesticidas e com corredores biológicos entre os vinhedos (foto), uma tendência cada vez mais irreversível e boa para nós, consumidores. Desde então passei a apreciar seus vinhos, que exibem qualidade e bom preço em suas linhas mais acessíveis, entre 35 e 40 reais a garrafa. Esse sem dúvida é um dos componentes que justificam o fato de que ambas estão, segundo acaba de publicar a revista Drinks International, entre as 50 marcas de vinho mais admiradas do mundo.

O “The World’s Most Admired Wine Brands” é um ranking anual feito com a participação de especialistas, com uma série de critérios onde são avaliados a qualidade consistente e crescente dos vinhos, a região ou país de origem, as necessidades e gostos dos consumidores, além da comercialização e distribuição dos vinhos.

Os vinhos da Cono Sur e Emiliana são importados pela La Pastina.

A cozinha portuguesa do jeito que ela se gosta. E como nós gostamos!

Restaurante TrindadeBacalhau Gomes de Sá
Bacalhau Gomes de Sá, Restaurante Trindade (SP), foto do grande Mauro Holanda

Bela iniciativa da poderosa Herdade do Esporão, do Alentejo, que elabora alguns dos melhores vinhos portugueses: uma série no YouTube com 19 episódios em 59 vídeos, de 50 localidades do país. E com um delicioso nome: Esporão & A Comida Portuguesa A Gostar Dela Própria.

Um projeto muito interessante, à procura das raízes da gastronomia portuguesa com 16 chefs renomados contando segredos de suas principais receitas, muitas delas com ingredientes regionais e pouco conhecidos, como a muxama (atum prensado e seco) e as ovas de polvo também com o mesmo processo, típicas do Algarve.

Observação (que em nada desmerece a iniciativa): vi alguns capítulos e às vezes é bastante difícil entender as frases inteiras de alguns participantes, sobretudo por causa do ambiente fechado em que foram gravados, com ecos. As legendas são em inglês e por curiosidade resolvi clicar na versão portuguesa, “gerada automaticamente”, isto é, através de algoritmos. No primeiro vídeo que vi, o entrevistador Tiago Pereira conversa com o chef André Magalhães, da Taberna das Flores, de Lisboa. E a primeira frase de Tiago aparece legendada assim: “Comida tem uma coisa. Ainda tenho uma coisa te diria que a história dos tambores de vitórias em mendonça de um gol em dois tribunais”. Fiquei a ver naus…

Independente disso, vale muito a pena assistir os episódios generosos da Esporão, porque a comida portuguesa, ainda que vertida em algoritmos, é antes de mais nada feita de sentimentos profundos, seculares, verdadeiros.

O link do canal: www.youtube.com/channel/UC-auK24fZQ_N3zBKqCNzGnQ