O vinho do deserto

Salar de Tara,  deserto do Atacama, Chile
Salar de Tara, deserto do Atacama, Chile

No último post fiz menção, no título, a vinhos com nomes engraçados em seu original espanhol ou que podem soar estranhos em português. O nome de um deles é Tara, cujos vinhedos ficam no deserto do Atacama, Chile. Ali, a natureza precisa acionar seu arsenal de milagres para que o verde arrume uma brecha em meio à impactante visão lunar de suas terras. Mas como a uva vinífera não é muito chegada a excessos de água nem a solos especialmente férteis, o deserto se tornou mais uma opção dentro da curiosa geografia longilínea do Chile, cheia de extremos.

Tara é uma linha da gigante Viña Ventisquero, que no ano passado exportou um milhão e duzentas mil garrafas para o Brasil. O nome foi inspirado no Salar de Tara, um pedaço do Atacama que conheci há alguns meses (na foto acima), mas que está longe do Vale de Huasco, onde se situa o pequeno projeto da Ventisquero, a 22 kms do mar. Sob a chefia do enólogo Felipe Tosso ali são elaborados dois tintos – um com predomínio de Syrah e o outro com Pinot Noir – e um branco em que a Chardonnay prevalece. Experimentei esse último no lançamento do Guia Descorchados 2015, no qual obtém 95 pontos, algo bem expressivo para um vinho relativamente novo. Tem aroma e sabor bem frescos e agradáveis, com uma acidez muito elegante, fina, mas infelizmente seu preço não é camarada (R$240), talvez explicado pelo fato de que apenas 2.800 garrafas do branco foram produzidas. É distribuído pela Cantu Importadora. http://www.cantu.com.br

Tara, Imperfecto, Enemigo, Condenado, Íntimo, Incomprendido, Cuatro Vacas Gordas. Quer conhecer esses vinhos?

Dar nomes aos filhos provoca dúvida e ansiedade e algo parecido ocorre quando o vinhateiro está prestes a lançar seu rótulo no mercado. Alguns optam pelo mais comum, previsível, mas outros buscam nomes que possam causar impacto ou curiosidade. Os vinhos citados estão no excelente Guia Descorchados (“desarrolhados”) 2015, lançado agora, reunindo vinhos de diversos tipos da Argentina, Chile, Uruguai e espumantes do Brasil.

A autoria final é do crítico chileno Patricio Tapia, que escreve o guia há 17 anos em seu país e agora lança a quinta edição em português através da Inner Editora, de Christian Burgos, também publisher da revista Adega. São 1.058 páginas com citações comentadas de mais de 3 mil vinhos, além da escolha dos melhores de cada região ou por estilo. O chileno mais bem avaliado, por exemplo, é o Lota 2009, da Cousiño Macul, tinto com Cabernet Sauvignon e Merlot, que ganhou 97 pontos, mesma pontuação do melhor argentino, o Eggo Tinto de Tiza 2013, da bodega Zorzal, com Malbec, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, que curiosamente não foi maturado em madeira, como é comum nos tintos mais expressivos, mas em grandes ovos de cimento, nova tendência entre alguns jovens enólogos, sobretudo aqueles que praticam viticultura orgânica ou biodinâmica. O melhor tinto uruguaio é o Amat Tannat 2009, da bodega Carrau em Cerro Chapeu, Rivera, com 95 pontos, e o melhor espumante brasileiro é o Cave Geisse Terroir Nature 2009, da Serra Gaúcha, com Pinot Noir e Chardonnay, 93 pontos. 

Um problema: falta ao guia um índice com os nomes dos vinhos, relacionados apenas junto às vinícolas. Como advinhar que o Cuatro Vacas Gordas é da bodega argentina Caligiore Vinos Ecologicos? O guia está à venda nas livrarias por R$105,00 ou pela Loja Adega.